8 de maio de 2013

A curiosa cegueira humana


        As gotículas brilhantes mudavam de percurso no rosto da mulher cada vez que ela soluçava. Estávamos em um ônibus lotado, no horário de pico, viajando em direção ao centro da cidade. A garota não parecia estar constrangida por estar chorando em público. Aliás, muito pelo contrário, tive a impressão de que ela gostava da atenção que chamava. Era impossível não encará-la. Mulher, muito atraente, lá pelos 28 anos e um cabelo cacheado cor de ouro de dar inveja. O ônibus inteiro trocava olhares e cochichos sobre a garota chorona.
        De repente, uma velha sentada ao meu lado afirmou: “Aposto que brigou com o marido!”. Um garoto cheio de espinhas retrucou: “Que nada, deve ter sido demitida”. Os comentários iam ficando cada vez mais altos e indiscretos. Fiquei um pouco irritada com toda aquela situação, as pessoas não tinham um pingo de respeito pelo sofrimento da garota. Apesar disso, em alguns segundos eu já estava imersa eu meus pensamentos, tentado adivinhar porque a menina chorava tanto.
        Da última vez que chorei pra valer, foi em um velório. Perder alguém próximo é, além de deprimente, incompreensível. Nós só aceitamos aquilo que entendemos. E perder alguém do nada, sem aviso, sem velhice, por uma doença estúpida não nos traz muitas certezas existenciais. Nunca me esquecerei do dia em que acordei num pulo no meio de uma madrugada chorando. Havia sonhado com minha madrinha morta de novo. “Deve ser isso, a garota loira perdeu alguém próximo”, pensei.
        Um celular começou a tocar. Ninguém deu muita atenção ao fato, até o momento em que perceberam que o celular era da mulher. Inúmeros olhos curiosos se voltaram para o canto em que a música alegre tocava no telefone. A garota revirou a mochila nervosa, tentando achar o celular dentro daquela bagunça composta por cadernos, maquiagens e documentos. Todos suspiraram quando ela finalmente encontrou o aparelho. E ela gritou “PAI, ESTOU GRÁVIDA”. A plateia no ônibus ficou perplexa. Alguns sorriram, outros não esboçaram reação por alguns segundos. A velha intrometida começou a bater palmas sozinha. Em alguns microssegundos todos no ônibus gritavam parabéns e batiam palmas junto com a idosa. Irônico perceber que as águas salgadas que eu pensava terem nascido da morte de alguém, eram lágrimas de uma vida nova que desabrocharia. 
        Tudo foi meio bobo, mas valeu meu dia. Nós, os intrometidos do ônibus lotado, comprovamos a falta de percepção que os seres humanos modernos possuem. O mar que escorria naquele rosto perfeito estava repleto de amor. Ela chorava, mas esboçava pequenos sorrisos em cada pausa. Ela chorava, mas seus olhos azuis exalavam esperança. A curiosidade matou o gato, nosso bom senso e nossa capacidade de perceber que ainda nesses tempos difíceis dá pra chorar de felicidade.

Um comentário:

  1. Muito bom! Arrepiei ao ler!!!Espero que qualquer semelhança com a realidade tenha sido mera coincidência, especialmente com a parte do sonho com a madrinha morta!!!!!

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