31 de dezembro de 2012

A rotina da despedida

- Obrigado por abrir a porta - diz o homem com cara de quem não dormiu na noite anterior.
Ele está com lágrimas nos olhos, ela já chorou o que tinha que chorar sem a presença dele. Duas pessoas estão na sala, porém a falta de qualquer ruído faz parecer que o cômodo está vazio. Os passos do homem quebram o silêncio, ele caminha até seu antigo quarto. A mala estava aberta em cima da cama. Começa a revirar as roupas no móvel. As vezes terminava de dobrar uma camisa e logo após o feito a desdobrava, só para prolongar o pouco tempo que lhe restava na casa. Cada peça de roupa colocada dentro da mala trazia lembranças tristes de dias felizes. O homem pega a gravata vermelha para guardá-la, porém relembra que foi presente dela, em um aniversário de casamento não muito distante. Leva a gravata até o nariz, procurando o perfume que tantas vezes ansiou. Nada, apenas o odor do deprimente amaciante.
A mulher no outro quarto já juntou todas as suas coisas. Na realidade já havia arrumado seus pertences muito tempo antes, pois já previa a chegada do fim. Ele se aproxima da mulher com as palavras quase fugindo de seus lábios, porém a coragem lhe escapou do peito. Dirigiu-se então para a cozinha e tomou um gole áspero de aguardente. O homem já havia tomado muitos goles antes de vir, para espantar o rosto cansado causado pela noite passada em claro.
Mesmo quando conversavam não olhavam uns nos olhos do outro. Quando de repente os olhares se encontravam, os mesmos rapidamente fugiam pra algum esconderijo distante, onde poderiam utilizar o remorso como armaduras. Aquele silêncio matava-o lentamente, como um veneno imperceptível. Sem controle, a pergunta saiu de sua boca:
- Porque você bagunçou o meu para sempre? O que você fez pagou o preço da minha despedida? - os olhos escorriam novamente.
A mulher parecia uma estátua, a única coisa que provava que ela ainda estava viva era o pequeno movimento que seus olhos faziam de tempos em tempos. Nem seu peito se movimentava ao respirar. A indiferença dela o fazia tremer de raiva. Como era possível haver um ser tão apático? Depois de tantos segredos trocados! O homem desistiu, voltando para o quarto pegar o resto de suas coisas. Derrotado, o homem se dirigiu até a porta.
- Tenho direito a um último pedido? - choramingou o homem, com olhos de menino.
- Claro, claro - respondeu ela com rispidez.
Ele pede um último beijo, sem saber que aqueles lábios já haviam dado esse beijo de despedida na boca de um outro alguém. Logo em seguida atravessou a porta da despedida, para um futuro fora daquela vida que tanto adorava.

25 de dezembro de 2012

Por favor, leia minha placa


  Eu sou o homem-placa. Minha profissão, se é que posso chamar minha tediosa ocupação dessa forma, é ficar estático no meio de avenidas com trânsitos caóticos com uma placa pendurada em meu pescoço. A que seguro agora tem escrito: "Apartamento 3 dorm. + 1 suíte em bairro nobre, ligar: 3674-5295". Meu nome não interessa a vocês. Sou um excluído social, mais um fantasma das grandes cidades metropolitanas.
  Nessa manhã de 24 de dezembro as calçadas lotadas de seres barulhentos me fazem esquecer que é Natal. Feriado é coisa que grandes políticos criaram para grandes personalidades. Para gente como eu, é só mais um dia de trabalho debaixo do sol quente de verão.  Quando as pessoas passam por mim, abaixam a cabeça. Não sei se de vergonha ou de medo. Pergunto-me se alguém já telefonou para o número de telefone que abraço em meu peito. Duvido muito, pois nesses 3 anos de serviço nunca ninguém trocou olhares comigo. Zero bons-dias, zero sorrisos. Apenas olhos que se reviram para baixo e pés que andam mais rápido ao passarem por minha pessoa.
  Uma criança loira dos olhos mais claros que o céu daquela manhã fica parada, estática, perplexa, me encarando com certa curiosidade. Ela balbucia: " Oi, eu já sei ler, quer que eu leia sua placa?". Por não saber a resposta certa daquela pergunta inusitada respondi que sim. O menino leu lentamente aquelas letras vermelhas na placa amarela, levando quatro vezes mais tempo do que um adulto levaria para lê-las. Então ele fala: "Que mensagem mais chata de Natal, você deveria escrever algo mais interessante". A criança então saiu correndo e entrou em uma pequena casa na esquina da avenida. Meia hora depois, voltou com um sorriso de ponta a ponta no rosto e uma folha de cartolina com algumas palavras desenhadas com giz-de-cera. Retirou fitas adesivas do bolso e colou a cartolina por cima das tristes letras de minha placa.
  Segundos depois, a mãe da criança apareceu desesperada. Havia procurado o menino por toda parte, era um alívio encontrá-lo são e salvo. A elegante mulher me agradeceu inúmeras vezes, eu nem entendia o porquê. E então, sorriu para mim e me abraçou. O menino num pulo rápido nos abraçou também e ficamos naquele amontoado de corpos por alguns instantes. Foi a primeira vez que olharam diretamente em meus olhos durante todos aqueles anos de serviço como homem-placa. Como não sabia ler, perguntei o que estava escrito na cartolina que o menino havia colado em meu tórax. A mãe permaneceu com um sorriso silencioso, pegou na mão da criança e foi embora para nunca mais voltar. Sobrei só, na avenida tumultuada, com a frase "sou um ser feito de sonhos" escrita em meu peito. 

4 de dezembro de 2012

Boa noite, princesa


        Mais um sábado à noite perdida entre uma multidão de desconhecidos. Com uma bebida alcoólica não identificada em uma mão e um cigarro na outra, a garota cambaleava pelo salão. As luzes estroboscópicas cegavam por alguns momentos e a música ensurdecedora amortecia seus sentidos. Já era pra lá da meia-noite, não conseguia mais enxergar os tremidos ponteiros de seu relógio cor-de-rosa. Tropeçou em um ser anônimo, caiu. Ele a ajudou a levantar, extremamente galanteador. Mais um gole da bebida ardente desceu por sua garganta. O salão girou mais uma vez a sua volta, a última memória que restaria em sua mente. Tremeu dos pés à cabeça, caiu novamente. As luzes da festa se apagaram. O brilho de seus olhos se apagariam para sempre.
       Voltou à consciência com os próprios gritos abafados contra uma mão áspera. Mãos deslizantes, pernas para o alto, socos no ar, lágrimas em todos os corpos, apertões descabidos, suor entrelaçando os dois seres,  medo. O quarto com paredes amarelas enjoava a menina. Ela se perguntava o porquê daquilo em meio aos próprios berros. Não sabia onde estava, na realidade não saberia responder em que lugares estivera nos últimos sábados daquele ano. Desistiu de lutar contra aquele destino desgraçado.
       Alguns eternos minutos depois, após grande barulho e movimentação, a dor acabou. Ela abriu os olhos, uma sombra ia embora no fim do corredor. Tentou se levantar do colchão sujo com suas próprias lembranças tristes, não teve forças. Restou uma bela menina estatelada no quarto daquele hotel não identificado. Sozinha para sempre, abandonada como Cinderella depois da meia-noite. Não havia esquecido o sapato de cristal na festa, mas sim sua paz de espírito para todo o resto de sua vida.