O vaso com um laço em cima da mesa dá um ar agradável ao quarto minúsculo de paredes brancas. Quase não há móveis e os que existem, são beges. A única cor que se vê no cômodo é a da tulipa roxa no vaso enfeitado. A flor chama tanta a atenção que é quase impossível não querer tocá-la, cheirá-la. A eterna decepção dos desavisados é perceber que a planta é de plastico, dura e sem perfume algum. No passado, gostava de flores de verdade, sentimentos de verdade, sensações de verdade. Hoje me contento com a maquiagem, a mentira. Regar, podar e limpar, nunca mais. Não tenho tempo nem de cuidar assim de mim mesma, imagine de uma planta estúpida. A tulipa roxa me encara com ar de superioridade. Ela sabe meus segredos. A verdade é que tenho medo do cair das pétalas, com tantas perdas na vida decidi que não quero mais sentir saudade de nada, nem mesmo de uma flor. Não suportaria assistir o fruto de todos os meus cuidados morrer, seria incrivelmente doloroso assistir às pétalas que tanto reguei caírem em cima do triste móvel bege. A verdade é que os espinhos reais me lembravam a dor de amar, que é o pior dos sentimentos. A verdade é que eu prefiro o cheiro solitário do plástico àquele perfume melancolicamente alegre. Escolhi a tulipa porque é uma flor que nunca desabrocha e, assim como eu, nunca se abre, vive fechada para o mundo. As flores de plástico na mesa central de minha sala ludibriam minha desilusão. A falsidade das plantas posicionadas propositalmente no meio do meu cômodo principal refletem a máscara que utilizo no meu dia-dia. Vivo uma vida feita de plástico roxo.