25 de dezembro de 2012

Por favor, leia minha placa


  Eu sou o homem-placa. Minha profissão, se é que posso chamar minha tediosa ocupação dessa forma, é ficar estático no meio de avenidas com trânsitos caóticos com uma placa pendurada em meu pescoço. A que seguro agora tem escrito: "Apartamento 3 dorm. + 1 suíte em bairro nobre, ligar: 3674-5295". Meu nome não interessa a vocês. Sou um excluído social, mais um fantasma das grandes cidades metropolitanas.
  Nessa manhã de 24 de dezembro as calçadas lotadas de seres barulhentos me fazem esquecer que é Natal. Feriado é coisa que grandes políticos criaram para grandes personalidades. Para gente como eu, é só mais um dia de trabalho debaixo do sol quente de verão.  Quando as pessoas passam por mim, abaixam a cabeça. Não sei se de vergonha ou de medo. Pergunto-me se alguém já telefonou para o número de telefone que abraço em meu peito. Duvido muito, pois nesses 3 anos de serviço nunca ninguém trocou olhares comigo. Zero bons-dias, zero sorrisos. Apenas olhos que se reviram para baixo e pés que andam mais rápido ao passarem por minha pessoa.
  Uma criança loira dos olhos mais claros que o céu daquela manhã fica parada, estática, perplexa, me encarando com certa curiosidade. Ela balbucia: " Oi, eu já sei ler, quer que eu leia sua placa?". Por não saber a resposta certa daquela pergunta inusitada respondi que sim. O menino leu lentamente aquelas letras vermelhas na placa amarela, levando quatro vezes mais tempo do que um adulto levaria para lê-las. Então ele fala: "Que mensagem mais chata de Natal, você deveria escrever algo mais interessante". A criança então saiu correndo e entrou em uma pequena casa na esquina da avenida. Meia hora depois, voltou com um sorriso de ponta a ponta no rosto e uma folha de cartolina com algumas palavras desenhadas com giz-de-cera. Retirou fitas adesivas do bolso e colou a cartolina por cima das tristes letras de minha placa.
  Segundos depois, a mãe da criança apareceu desesperada. Havia procurado o menino por toda parte, era um alívio encontrá-lo são e salvo. A elegante mulher me agradeceu inúmeras vezes, eu nem entendia o porquê. E então, sorriu para mim e me abraçou. O menino num pulo rápido nos abraçou também e ficamos naquele amontoado de corpos por alguns instantes. Foi a primeira vez que olharam diretamente em meus olhos durante todos aqueles anos de serviço como homem-placa. Como não sabia ler, perguntei o que estava escrito na cartolina que o menino havia colado em meu tórax. A mãe permaneceu com um sorriso silencioso, pegou na mão da criança e foi embora para nunca mais voltar. Sobrei só, na avenida tumultuada, com a frase "sou um ser feito de sonhos" escrita em meu peito. 

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